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Anos de néon |
Quando ainda era dona dos meus 18 anos fui a Porto Alegre traçar o vestibular. Morei na rua Alberto Torres, ali na Cidade Baixa, naqueles idos, sem charme maior do que um teatro fuleiro rastreado por um pessoal alternativo, que não tomava banho e cujas gurias não depilavam os sovacos. Um assombro para meus olhos e todos os sentidos recém chegados do interior. Naquela rua ainda havia casas de telhado e calha, antiguinhas. No muro de uma delas, a pichação “eu tenho o maior medo de ser normal”. O autor, muito consciente, concedeu o crédito a John Lennon. Nunca esqueci essa frase e olha que a minha memória contém os mesmos ingredientes de um pudim. Dois anos depois casei, tranquei a faculdade de jornalismo e fui criar os filhos. Com o tempo fui enlouquecendo gradativamente ...
Era o fim dos anos 70. A novela Dancin’Days empilhava toda a família na frente da Globo, ordenando: use meias de lurex, use meias de lurex, use meias de lurex. Naquele tempo os homens babavam pela “Julia Matos” e rendiam homenagens espermáticas a Sônia Braga. E a gente, pra lá de alienada, exalava todos os vapores nas “discos” ao som das Frenéticas.
Quem sou eu para afirmar ou duvidar de que a minha leitura de mundo iniciou em 1978? Significados nas letras musicais, sentido oculto na criação de personagens, contradições nos telejornais, interpretação do imaginário e a descoberta sensacional do ouvido esquerdo colado em Chico Buarque, que acabara de regravar “Cálice”, pós-censura:
“Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo”
Então, no ano seguinte, Fernando Gabeira voltou do exílio. E começou a escrever. E eu comecei a ler tudo que ele escrevia. E depois ia ler a “Nova”, porque yo, mal que bien, era una mujer moderna, comprende? Ahã, tinha atitude...
Foi a revista Nova que me ensinou tudo o que sei sobre sexo. E foi o Gabeira que me ensinou tudo o que sei de irreverência. Pois é. Sou o resultado de leituras, das quais não vou discutir o mérito.
E quer saber? Não sei como cheguei até aqui... Já entrei em cada fria e me meti em cada ciganada que dou a vida como fato consumado, o mundo um poço sem fundo tendo o pecado de vizinho. E quanto mais eu vivo, maior é o medo de ser apenas mais um normal... E você?
Saravá John Lennon!
Laura Peixoto
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quarta, 08 de novembro de 2006 |
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meias de lurex?? revista nova?? sobrevivi também, mas o melhor mesmo, é abrir as suas asas e soltar as suas feras, jamais esqueceremos...beijos!!! |
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Monica |
09.12.2006 - 17:56 |
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Oi amiga, segui tua dica e comecei o dia nostálgica e menos normal do que nunca...Não era pela Sônia Braga que me derretia, mas pelo Lauro Corona...quando nos anos 80 esbarrei nele numa livraria do Rio, quaaaaaaaaaaaaase desmaiei e conversando com ele, já terminal, disse que se tivesse tido aquele encontrão aos 14 anos...
Quanto à ser normal.. a própria pergunta já é um sintoma..
comprei meia de lurex mas não podia ir à discoteca...
como diz minha filha: " é fazendo cagadas que se aduba a vida"...
bjos com carinho
celina
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Celina Darde |
09.11.2006 - 08:51 |
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saber como a gente chegou até aqui é piada, o difícil é saber como a gente vai conseguir continuar.
...e que bom que você viveu!
muito legal o texto: ele lê na gente coisas pelas quais já passamos. aquilo de quanto a gente tá lendo e começa a se ver nas palavras.
adorei "homenagens espermáticas".
e o mérito não são as leituras, mas o que você pensou sobre cada uma delas...
ontem li que na feira do livro de poa de 85 o movimento caía pela noite porque todo mundo corria para a casa para assistir roque santeiro...
é quase isso (e "quase" é a palavra mais triste que eu conheço)
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alien |
09.11.2006 - 08:08 |
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