Em 1971 haviam dois cinemas em Lajeado. Cinema mesmo! De 800 lugares ou mais. Assoalhos de verdade, em declive, que rangiam. Pé direito beeeem alto. Luzes amarelecidas nas laterais. Cortinado... Bordô, de veludo? No Cine Avenida, entre as poltronas de madeira, o escambo das revistinhas. Meu irmão: dois Mandrake por um Super Homem. Para mim, uma Luluzinha valia mais do que qualquer Tio Patinhas.
O cheiro do Avenida inspirava poeira e mofo. Nos seus últimos suspiros de vida, uma inhaca ativa, em função dos cartazes de mulher pelada que atraiam um pessoal suspeito... Da porta até a telona: quatro corredores largos. Nós percorríamos todo o cinema, desfilando e conferindo congas, topekas e tiaras. E revistas, óbvio. Quando apagava a luz, subíamos disfarçadamente até o mezanino, para ver os casais e jogar chiclete nos cabelos dos bolinadores lá embaixo. Mal o leão da Metro rugia e o saquinho de balas Chita ou Azedinhas já vazio, estourava, para delírio da gurizada que batia os pés no chão aclamando a molecagem.
Com declínio do Avenida, a transferência da empertigada classe média para as cadeiras estofadas de curvim azul do Cine Alvorada. Lá não se trocava revista, coisa mais jeca, do tempo do cinema “de baixo”. Daí eu já tinha treze anos e trocava mesmo eram as mãos insistentes dos guris nos peitinhos. Aliás, nas sessões de domingo, os filmes exibidos não importavam tanto assim...
O Alvorada era mais asséptico e eu não lembro do seu cheiro. Minha percepção de liberdade máxima se resolvia no escurinho do cinema. Então... Aos 14 anos assisti “Sem Destino”. Ou “Easy Rider”. Lançado em 69 chegava muiiiito depois nos cinemas do interior.
Não tinha importância. Encerrado os créditos, as luzes se acenderam e algumas coisas haviam se modificado: moda, conceitos, linguagem, inocência. E olha que eu nem sabia o que era um road movie. Fui descobrir o gênero na faculdade. Por isso, às vezes penso, que não foi a televisão que transformou alguns de nós. Foi o cinema: A Primeira Noite de um Homem, Midnight Cowboy, Dois Perdidos numa Noite Suja, Blow Up, Laranja Mecânica, Love Story, Gritos e Sussurros...
Rodar ao sabor do vento, numa Harley-Davidson, com uma trilha sonora deslumbrante, nadar pelado, fazer amor livre, viajar de carona e viver novas experiências: “Trague mais fundo e viaje mais longe”, ensinava Dennis Hopper a Peter Fonda, sem dúvida, foi chocante, meu chapa!
2007. Cinema de shopping, com ar refrigerado, projeção barata e péssimo som. Viva as locadoras! Viva o controle remoto e viva a compreensão da maturidade! Vivas... Até onde você quer ir e até onde você quer chegar?
Pelas lentes do diretor de Easy Rider, os Estados Unidos era (sic) um país que não respeitava as liberdades individuais e vivia de um status quo fajuto. Mas, nada como um cartão de crédito para garantir regalias e prazeres mais caros.
Jack Nicholson mata a charada na representatividade de Billy e Wyatt e da sociedade americana: “... quando vêem um indivíduo livre, ficam com medo”.
Uma bad trip antecede o desfecho trágico e moralista. Muito banal, hoje.
Mas, a trilha sonora continua fascinante. Procure pelo dvd na sua locadora: dá pra rir, se entediar (?), se emocionar. E questionar.
É o mínimo, não?