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colunistas
Laura Peixoto
laura@saiadatoca.com.br

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Rotas de fuga...
Doze de maio de 2000. Às três e meia da madrugada meu pai parou de respirar: findara sua autonomia. Estava com ele sua irmã e Jussara, a enfermeira. Minha mãe foi quem me deu a notícia. Por telefone.

Corri para o hospital. Encontrei o quarto vazio. Desci até uma sala onde se  rendem os corpos sem alma. Ainda havia calor no corpo de meu pai.  Levantei o lençol e fiquei olhando para seu rosto, enfim, sem traços de dor. Entrara no hospital dois dias antes, às 23h da noite.

Estava muito mal em casa, com falta de ar e angústias declaradas. Ao passar pela vão da porta principal, deitado na maca, olhou para minha mãe buscando incerteza. Ela deu um beijo leve na face e ele entrou em coma apesar de receber máscara de oxigênio.

Eu não me despedi em vida. Passamos o dia 11 de maio ao seu lado no quarto de médio asseio. Seria aquela sua última noite. Parecia um sono tranqüilo. Depois descobri que esse sono chamava-se ortotanásia, fado em regressão.

O irmão de meu pai embarcou no Galeão. Chegou ainda de noite na cidade. Não achou ninguém no hospital, tampouco em nossa casa. Foi para o hotel. Quando nos encontramos de manhã foi para comunicá-lo que os dias artificiais haviam cessado.

Muita gente passou pelo velório. Gente humilde, políticos, gente amiga, colegas de trabalho, parentes, conhecidos e curiosos sem nada para fazer. Foi um dia longo e triste. De abraços cansativos e pisões nos pés...

De que adianta tanta dureza, tanta moralidade, tanta hombridade se tudo se perde nos mistérios das nossas escolhas?

O velório é uma encenação, uma tragicomédia.  O único que encena bem - sem canastrice - é o morto.

Saio do velório para tomar um ar.  Atravessando a rua, o presídio. Do outro lado, a rodoviária. Aqui o cemitério.

Naquele dia me perguntei qual destino eu tomaria para desertar de vez dessa cidade que me sufoca e desequilibra?


segunda, 02 de julho de 2007

  Blog do colunista
Parabéns, Laura!!!Tens um talento indescritível...Adoro teu trabalho como escritora...Deixas visível, coisas totalmente invisíveis...Parabéns, querida amiga. Um forte abraço.
mara | 25.01.2008 - 12:19

Sempre me perguntei se grandes escritores escolhem antecipadamente cada pensamento e até mesmo cada palavra, como os pintores que esboçam desenhos antes do definitivo. Conta aí, amiga, como é mesmo que vocês fazem? Profunda descrição desse acontecimento tão definitivo, texto poderoso porque se trata de teu pai, e escondes os sentimentos extremados que se pode sentir nessa hora fazendo uma análise crua dapassagem sem deslizar prás emoções de agrado fácil e abusivo. NOOOOOSA, que talento tens, e és MINHA AMIGA, né?
vico | 18.01.2008 - 15:35

ahhhhhhhhhh
descrever os fatos "apenas" com a força que os fazem ser - sem pinturas - talvez seja a metáfora mais difícil e ela está aqui.
velório sempre é aquilo, mas o teu texto é tudo isto!
alien | 30.10.2007 - 20:43

laurinha minha querida,
vc escrevendo sempre tão bem e com tanta precisão.
beijos. carinho.
db
barella, denize | 10.08.2007 - 08:39

muito bom, emocionante, objetivo.
Consegue falar da morte com objetividade e sem pieguice.
Eu só choro sobre este tema.
jane | 04.07.2007 - 07:57





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