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entrevista
Fernando Noronha , guitarista de blues

Se eu tiver neto, vou contar para eles essa história de que nós abrimos o show do B.B. King e ele... Pô, na maior humildade que eu vi na minha vida, agradeceu a banda e ainda fez um puta elogio...
Fernando Noronha & Black Soul estiveram dia 7 de outubro no Anarquia Bar em Lajeado, onde a banda concedeu entrevista ao Saia da Toca.

Os membros da banda estão juntos desde janeiro de 1995. Nesses 11 anos de carreira, já gravaram 6 discos. O último, Bring it, recém lançado. Vieram recentemente da oitava turnê na Europa. Já se apresentaram em Festivais e Clubes de Blues ao redor do mundo, levando sua música para países como Argentina, Chile, Bélgica, Holanda, Alemanha, Espanha, Canadá, Suíça e Áustria.

Trabalharam ao lado de nomes como B.B. King, Buddy Guy, Jeff Healey, Coco Montoya, Chris Duarte e Phil Guy, entre outros.

Fernando, o sucesso de vocês não deve ter ocorrido por acaso, além de muito talento deve ter havido muito trabalho. Conte para nós como tudo começou?
Noronha: Cara, o que nos possibilitou essa saída do Brasil foi a internet. Nós fizemos nosso primeiro site, acho que foi em 1999 ou 2000. Junto com o site nós fizemos uma pesquisa sobre bares e casas de blues ao redor do mundo. Então fizemos uma seleção e mandamos email para esses lugares solicitando quais gostariam de receber nosso material. De 300 lugares, 50 disseram que gostariam de receber material e destes 50 nós somente não fechamos 8 shows.
Essa foi nossa primeira ida para a Europa. Nós apostamos e fomos, isso que abriu as portas para os demais anos. A cada ano na Europa nós vamos conhecendo mais pessoas, mais contatos. Está sendo muito bom.

Antes de enviar este material para as casas de blues do mundo como era o trabalho de vocês aqui no Brasil?
Noronha: Antes nós fazíamos um trabalho mais regional aqui no Brasil, principalmente no Rio Grande do Sul.
Bem! Começamos no interior do Rio Grande do Sul, que é um belo circuito para quem toca blues e rock'n'roll. A galera do interior do estado gosta muito.
Depois do Rio Grande do Sul o primeiro passo foi Santa Catarina, depois fomos até São Paulo e aí pintou a internet. Depois, com o site tudo mudou. Cara! O site foi muito importante para acabar com as fronteira. Foi a partir dalí para todo o mundo ver.

Fernando Noronha é gaúcho de Porto Alegre, um “produto nosso” para o mundo. Que bom que o sucesso de vocês está sendo ao contrário da campanha 'No Export' da cerveja Polar. O rótulo neste caso é 'Export'.
Noronha: (risos)

Como é o trabalho de vocês no Exterior em comparação com o do Brasil?
Noronha: Lá na Europa está muito bom, já é o sétimo ano consecutivo que vamos para lá. Teve um ano que fomos duas vezes. E nós estamos crescendo, cada ano que passa temos repercussões maiores, tipo “head lines”, tipo uma atração principal. E acho que a coisa só tende a crescer. No Brasil também está legal, mas não é tão forte quanto lá fora. O que falta aqui é investimento por parte de patrocinadores e empresas a fim de incentivar os eventos de blues e rock'n'roll, porque público tem. O público daqui é fiel, não está aí por modismo. Vai gostar até morrer (risos). Na Europa tem muita produção de eventos, seja de qualquer coisa, Heavy Metal, MPB, Rock, Blues e tal. Tem evento em tudo quanto é lugar.

Como foi esta última turnê na Europa?
Noronha: Nós tivemos agora no leste europeu abrindo portas, na Polônia, fora outros países que nós já havíamos ido como Bélgica, Alemanha e Holanda. Essa primeira vez na Polônia foi demais. Provavelmente no ano que vem vamos tocar na República Tcheca e talvez até na Albânia.

Albânia?
Noronha: É! Nós vamos nos aventurar por lá.

Este é o primeiro show de vocês após a turnê na Europa?
Noronha: Não. Nós viemos da Europa por final de maio ou começo de junho. Lá fizemos dezesseis shows em três semanas. Depois fomos tocar em julho no festival de Jazz em Montreal onde tinha um espaço Blues dentro do evento. Esse show foi maravilhoso, tinha umas 12 mil pessoas, um dos shows mais inesquecíveis para mim. E agora nós já estivemos... estamos rodando por Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Agora, neste final de ano, no nordeste.

Vocês já estiveram junto com grandes feras do Blues e do Rock como o B.B. King. Como foi este encontro com esses precursores do Blues?
Noronha: Para o B.B. King nós abrimos o show e eu já tive a oportunidade de tocar com o Coco Montoya, aquele que começou como baterista do Albert Collings, o mesmo que foi substituído pelo Eric Clapton que naquela ocasião saia da banda do John Mayall. Toquei com o Chris Duarte, com o Phil Guy, o imão do Buddy Guy. Quanto ao Buddy Guy, nos já abrimos show dele, mas nunca tivemos a oportunidade de tocar juntos.

Falando em B.B. King, é verdade que depois de abrir um show para ele, o próprio B.B. King veio agradecer vocês?
Noronha: É... é. Ele teve a cara de pau de ir agradecer agente (risos). Pô! Não vou me esquecer nunca dessa noite. Se eu tiver neto algum dia, vou contar para eles essa história de que nós abrimos o show do B.B..King e ele... Pô, na maior humildade que eu vi na minha vida, agradeceu a banda e ainda fez um puta elogio para nós.

Há quatro anos atrás assisti um show seu na Unisinos, naquela ocasião alguns te chamavam de 'Steve Ray Voughan brasileiro', outros de 'Steve Ray Voughan dos Pampas'.
Noronha: (risos)

Como essa comparação soa para ti? Já ouviu esta expressão em outros lugares?
Noronha: Já ouvi em outros lugares. E acho isso muito bom, afinal, ele é um dos meus maiores heróis. Eu comecei ouvindo Rock'n'Roll mas, foi quando eu ouvi Stevie Ray Vaughan aos 17 anos eu pirei da cabeça. Aí que eu comecei a entrar em contato com o mundo do blues. Por inspiração nele que eu conheci meus grande mestres como o B.B.King, Albert King, Stephen King, Muddy Waters e toda aquela galera do blues. O Stieve Ray Voghan além de ser o meu herói ele foi a porta para conhecer todo esse mundo do blues. Ele vai ser sempre o meu herói. Ele o Jimi Hendrix e o Albert king vão ser sempre minha fonte de inspiração.

Naquela época, nos shows do Fernando Noronha & The Black Soul, você utilizava um chapéu parecido com o chapéu que os texanos usam. Você abandonou o chapéu?
Noronha: Sim. Depois de um tempo eu percebi que tu não vai ser o teu herói nunca, então eu resolvi ser eu mesmo (risos).

No início da carreira, Fernando Noronha tinha um estilo mais bluzeiro. Com o passar dos anos o blues começou a ficar com a batida mais pesada e o som do Fernando foi migrando para o Rock e o chamado ‘Eletric Blues’. Este vai ser o estilo do Fernando Noronha daqui para frente?
Noronha: Bem, isso é um lance bem natural meu. Eu cresci ouvindo rock’n’roll. Com cinco anos eu ouvia na casa dos meus primos (que eram hippies, pegavam onda, maconheiros (risos) )... então naquela época eu ouvia só veneno (risos) que eram Jimi Hendrix, Rory Gallagher,, Johnny Winter, Lynyrd Skynyrd, Wish Bones, Deep Purple, led Zeppelin , todas essa bandas de rock.. Eu cresci ouvindo rock então é super natural para mim deixar essas influências rolarem. Tem duas bandas que são minhas preferidas: Lynyrd Skynyrd e Wishbone Ash. O Wishbone Ash foi uma das primeiras bandas do mundo a dobrar os solos de guitarra. O próprio Jean Lease falou que dobrou a guitarra porque ouviu o Wishbone Ash. Tem duas músicas do Wishbone Ash que marcaram minha vida e eu sempre quis ser guitarrista por causa destas duas músicas que tem os solos de guitarra maravilhosos. Então é difícil fugir disso.
Essa banda entre o Blues, o Rock e o Blues-Rock é muito legal, eu continuo fazendo e eu procuro fazer o que me diverte.

É essa linha que o Fernando Noronha vai seguir, mergulhando um pouco no Blues, um pouco no Rock e um pouco no blues-rock?
Noronha: É, nos podemos ter momentos mais blues e momentos mais rock’and’roll. Tudo depende o que ta rolando na hora. O que interessa é fazer com tesão (risos). Sem tesão não há solução (risos).

Existe algo em especial que a banda pretende fazer no futuro?
Noronha: Para o ano que vem está programado gravar um DVD, que é o que está faltando para nós. Provavelmente este DVD vai ser gravado em Porto Alegre.

Para finalizar, o que os amantes do blues podem encontrar no seu novo CD o 'Bring it'?
Noronha: Este CD, o 'Bring it', é fruto das minhas composições com os arranjos da Black Soul. O CD tem 11 músicas, 10 são originais de minha autoria (uma música que eu e o Luciano compomos juntos). Este é um trabalho de grupo, quando nós entramos no estúdio nos fizemos os arranjos juntos. Além disso, tem uma interpretação do Stieve Jhon Walker, o mestre do blues. E o que a galera vai encontrar é um blues-rock, bem pesado até. A galera que curte rock’n’roll e blues vai se identificar total. Eu diria que este CD é um blues-rock com pegada mas, sem perder as raízes.


data: 07 de outubro de 2006
entrevistador: Fábio Elias Locatelli

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